A Filha da Enchente
A Filha da Enchente: a cicatriz que a água não levou
Existem noites que mudam tudo.
Não porque a gente escolheu
que fossem assim.
Mas porque a natureza
não pergunta o que a gente quer
quando decide mostrar sua força.
Aquela noite foi assim.
A enchente chegou de madrugada.
A cidade estava dormindo.
As ruas estavam vazias.
As casas estavam fechadas.
E a água veio.
Sem aviso.
Sem tempo.
Sem piedade.
Ela acordou com o barulho.
Primeiro achou que estava sonhando.
Depois sentiu a água nos pés.
Depois nos joelhos.
Depois na cintura.
E aí o instinto falou mais alto
do que qualquer pensamento.
A filha.
Tinha que pegar a filha.
Correu pelo corredor inundado.
Entrou no quarto.
Pegou a menina no colo.
Com aquela força de mãe
que não sabe de onde vem
mas aparece quando precisa.
A água subia.
A corrente puxava.
O mundo estava virando ao contrário.
Ela segurou.
Segurou com tudo que tinha.
Mas a corrente foi mais forte.
Num momento…
a menina estava no colo.
No outro…
não estava mais.
Ela gritou.
Mergulhou.
Procurou na escuridão da água.
Não encontrou nada.
Quando amanheceu…
ela estava num telhado.
Sozinha.
Com arranhões por todo o corpo.
Com uma cicatriz nova no braço
de quando tinha batido numa grade.
E sem a filha.
Os dias seguintes
foram o tipo que a gente
não consegue descrever.
A busca.
A esperança.
O desespero.
A esperança de novo.
O desespero de novo.
Semanas que viraram meses.
Meses que viraram anos.
Ela reconstruiu a vida
do jeito que se reconstrói
depois de uma enchente.
Com cuidado.
Com paciência.
Com aquela teimosia
de quem sabe que não tem opção
a não ser continuar.
Mas nunca parou de procurar.
Toda criança de cabelos cacheados
que via na rua…
ela olhava.
Todo rosto que se aproximava
do que a memória guardava…
ela parava.
Sete anos.
Sete anos de busca.
De acordar todo dia
com aquela esperança pequena
que a gente carrega
quando não tem mais nada pra carregar.
Numa manhã de domingo
ela estava sentada num banco da praça.
Com aquele olhar de quem
está no mundo mas não está presente.
Presente estava num outro lugar.
Num quarto de criança.
Numa noite de enchente.
Numa correnteza que levou
o que ela mais amava.
Foi quando a menina apareceu.
De roupas rasgadas e sujas.
Descalça no asfalto quente.
Cabelos cacheados e bagunçados.
Rosto com marcas de sujeira.
Caminhou pela praça
sem olhar pra ninguém.
Até parar na frente de uma barraca de comida.
E pedir.
Com aquela voz cansada
de quem está com fome
mas não tem mais força
nem pra parecer desesperado.
O dono da barraca
virou o rosto.
“Aqui não é lugar de pedir.
Vai embora.”
A menina não respondeu.
Virou devagar pra ir embora.
E foi nesse momento
que o sol da manhã
pegou a cicatriz no braço dela.
Pequena.
Do tipo que fica
quando a pele cicatriza rápido demais.
Do lado esquerdo do antebraço.
Ela parou no banco.
O coração foi antes da cabeça.
Porque ela conhecia aquela cicatriz.
Estava lá quando aconteceu.
Numa tarde em que a menina tinha caído
e batido num degrau
com aquela velocidade de criança
que não calcula a distância.
Tinha segurado a menina no colo.
Tinha levado ao pronto-socorro.
Tinha ficado do lado
enquanto os médicos costuravam.
Tinha beijado aquela cicatriz pequena
quando voltaram pra casa.
E prometido que ia ficar de olho.
E dois meses depois
a enchente tinha levado tudo.
Espera.
Ela se levantou do banco.
Caminhou até a menina.
Ajoelhou na calçada quente.
Olhou pra cicatriz de perto.
Do mesmo tamanho.
Do mesmo formato.
No mesmo lugar.
“Você tem um sinal pequeno
atrás do joelho direito?”
A menina puxou a calça devagar.
O sinal estava lá.
Ela fechou os olhos.
Quando abriu estava chorando.
Do jeito que chora quem passou sete anos
guardando uma dor
que não tinha como soltar.
“Eu sou sua mãe.”
A menina ficou imóvel.
Com aquela expressão de quem
ouviu uma coisa grande demais
pra caber de uma vez só.
“A enchente nos separou.
Eu procurei por sete anos.
Todos os dias.
Em todo lugar que podia.”
Ela estendeu os braços devagar.
“Eu nunca parei.
Nem um dia.
Nem uma hora.”
A menina ficou em silêncio
por um longo momento.
Olhando pra cicatriz no próprio braço.
Depois olhando pra cicatriz no braço da mulher.
Que tinha ganhado naquela mesma noite.
Na mesma enchente.
Batendo numa grade
enquanto procurava a filha na escuridão da água.
Duas cicatrizes.
Da mesma noite.
Da mesma água.
Da mesma dor.
Que sete anos depois
brilharam no sol da manhã
numa praça qualquer.
E trouxeram tudo de volta.
A menina foi pro abraço.
E ali na calçada quente
de uma praça onde um vendedor
tinha mandado uma criança embora…
uma mãe e uma filha
que a enchente tinha separado
se encontraram.
Sete anos depois.
Porque a cicatriz ficou.
Nos dois braços.
Contando a mesma história
de lados diferentes.
E às vezes…
as histórias que a gente carrega no corpo
são as que mais importam.
Porque não desaparecem.
Não com o tempo.
Não com a água.
Não com sete anos de distância.
Ficam.
E um dia…
encontram.